26 maio, 2008

Normalidade quase absoluta.

Já era de se imaginar que algum dia viria a cometer tal loucura. Estava farta de tantas acusações infundadas, cansada de ser a boazinha, a católica, a que sempre pensa primeiro nos outros. E ela? Que se ferre. Era assim que se sentia, uma inútil ameaçada, sujeita a cometer uma loucura que para muitos poderia parecer fatal, mas ela assim, estaria se libertando do que a deixava tão aflita.
Ingeriu todos os comprimidos da primeira caixa lacrada de remédios que encontrara na casa de sua irmã. Saiu sem dar satisfações. Pegou o carro que estava estacionado abaixo de uma árvore que o protegia da tempestade que arrastava a cidade aos bueiros.
Ela sabia que restavam poucos segundos para sua vida acabar. Tudo começou a passar em sua cabeça como um filme. A infância, a maior paixão, a filha e ao lembrar daquela caixinha de música que ganhara de sua avó, começou a sentir um arrependimento sem fim. Pensou em ir ao Hospital Santa Helena que se localizava próximo ao lugar onde ela estava naquele momento sufocante. Ela ainda tinha algum tempo, quem sabe assim ela conseguiria se desintoxicar. Mas pouco antes de completar o trajeto, foi perdendo a consciência ao volante e perdeu sua vida batendo de frente a um caminhão.
Sonhara tanto em ver sua filha Luiza, realizar o sonho de ser dentista, que ao lembrar disso antes do seu trágico fim, morreu com um sorriso no rosto e as mãos atadas em forma de oração.Em meio a seus documentos, bombeiros encontraram sua carta de despedida começando com: “Já dizia Raul Seixas que: A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal” e terminando com suas claras palavras que escondiam um sofrimento profundo: “Planejar a própria morte não é loucura. Loucura sim é não ser louca e deixar de cometer todas as loucuras que trazem o ar de graça à vida. E hoje posso dizer que a minha maior, única e trágica loucura cometida, foi de ter sido um sujeito normal demais”.

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