É tudo o que lembro, estávamos com pressa, o momento era de pura diversão e o álcool retardou nossos reflexos, só queríamos ir para a outra festa. Música alta, ele, perfeito, no volante e eu no banco de carona. Paramos no sinal vermelho e começou a tocar o refrão da nossa música. Beijamos-nos, o último beijo e eu ainda posso sentir seus lábios nos meus. Em meio a braços e abraços escuto uma buzina, abro os olhos, farol alto, um caminhão. O sinal ainda estava vermelho, eu juro. A culpa não foi minha, não foi dele, somos inocentes.
Acordo como se tivesse passado apenas uma noite, deitada em uma cama de hospital, o barulho dos aparelhos médicos me irritava e ao mesmo tempo uma pessoa chorava e gritava:
- Ela acordou! -... Era minha mãe.
- O que houve?
- Você estava em coma por três meses e graças a Deus acordou.
- E o Felipe?
- Acho melhor você ver com seus próprios olhos...
... E fui. Corredores, macas, pessoas passando mal e eu tinha acabado de ganhar a vida, novamente. Branco, tudo branco, frio e um aroma de remédio no ar. Hospital, como eu odeio. De longe vi o quarto 154 e o meu amor a dormir. Ao entrar naquele recinto vi enfermeiros controlando os aparelhos e me pedindo pra manter silêncio. O desespero começou a afrontar-me e, desesperada perguntei como ele estava e se voltaria logo pra casa. Nada. Disseram-me que estava em estado vegetativo e não respondia a sinal algum. O caso era grave. Ainda me recordo do pranto. Eu queria vê-lo, senti-lo nem que por um ínfimo instante qualquer. E lá fiquei.
Felipe após voltar a falar, sabendo que nada mais traria sua vida de volta, ciente de que sobreviver artificialmente estaria prejudicando tanto a ele tanto a mim, pediu para que eu desligasse os aparelhos, acabasse com meu último fio de esperança e oportunidade de sentir seu cheiro. Pior decisão de minha vida e o “eu te amo” mais sincero. Desliguei.
Hoje, a saudade é grande, não resisti. Três anos depois, ainda me recordo bem, foi o dia em que, pela segunda vez, eu morri.
01 setembro, 2008
Intacta; para ele.
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8 comentários:
É difícil até de criar algum comentário a respeito. O tema é delicadíssimo! Difícil de colocar-se no lugar da protagonista e tomar esse tipo de ação. Sempre penso se isso realmente vale à pena, pois não sabemos o que pode acontecer depois...
boa semana!
Isto realmente ocorreu com você Carol? Se ocorreu eu sinto muito, e faria a mesma coisa em seu lugar, mesmo sendo espírita kardecista e sabendo que nada ocorre sem motivos!
A agonia indescritível de ver minha amada sofrendo superaria qualquer futura punição que talvez viesse à receber lá no outro lado... Ao invés de julgar seu ato, prefiro abraçá-la bem forte, beijar sua testa e lhe dizer que os amigos verdadeiros devem sempre ficar ao nosso lado, em qualquer situação, em qualquer tempo... Seu amado se tornou invisível, apenas isso, pensamos morreu acabou, mas em minha opinião, quem morre se torna apenas invisível, pois reassume seu corpo natural, que é invisível, como o oxigênio o é, aos nossos olhos materiais... Portanto, esta pessoa ainda vive, e lhe deve ser imensamente grata!
Beijos! E não viva mais nesta época, isto já passou, viva no presente.
"Hoje, a saudade é grande, não resisti. Três anos depois, ainda me recordo bem, foi o dia em que, pela segunda vez, eu morri."
morre aí, beijo.
Conde, comigo não aconteceu não, graas a Deus, mas a hitória é real.
Eternamente grata pelo carinho!
;*
Nossa, q história ...
excelente texto, muito bom mesmo!!
que forte! dói só de pensar..
"foi o dia em que, pela segunda vez, eu morri."
final perfeito :D
te amo cacá, beeijos!
:OOOOOOOOO
Nossa nossa nossa, q foda :OOOOO
:*
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